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Peixes & Aquarismo

Peixes 

Os primeiros vertebrados do planeta Terra

Mariana Aprile*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Os peixes foram símbolos sagrados em várias civilizações. Para os babilônios, Oanes era uma criatura com corpo de peixe e cabeça de homem, que durante o dia trazia o conhecimento para as pessoas e, de noite, voltava para o mar. Em várias partes do mundo, tribos primitivas transformaram o salmão em um símbolo de poder, beleza e coragem.

Até mesmo na história do cristianismo, os peixes estão envolvidos em fatos extraordinários, como o milagre dos peixes. Alem disso, a palavra "Icthus", que significa "peixe", em grego, guarda as iniciais da frase "Iesus Christus Theou Uios Soter" (Jesus Cristo Filho de Deus Salvador). Na Antiguidade, em épocas de perseguição, os cristãos se identificavam por meio da representação de um peixe: uma pessoa desenhava um arco e, outra, completava o desenho riscando outro arco do lado oposto ao primeiro.

Atualmente, com os avanços do conhecimento científico, apesar de os peixes terem perdido espaço no aspecto mítico ou simbólico, continuam a se revelar criaturas fantásticas.

O peixe que tudo vê

Os peixes do gênero Anableps são popularmente conhecidos como "peixes-de-quatro-olhos". Esses animais são capazes de enxergar dentro e fora da água, simultaneamente, quando a linha da superfície da água está na metade de seus olhos. Tal façanha só é possível graças às adaptações especiais de seus olhos que, inclusive, têm sido objeto de vários estudos oftalmológicos.

Cada olho de um Anableps possui duas córneas, duas aberturas de pupila e, a retina subdivide-se em uma porção dorsal e outra ventral. O cristalino dos olhos desse peixe apresenta, em sua parte superior um achatamento (assim como o ser humano e outros animais terrestres) e, na parte inferior, uma curvatura adaptada ao índice de refração da água (da mesma maneira que os animais aquáticos).

Os peixes anableptídeos pertencem ao grupo dos peixes ósseos, conhecidos como Osteichthyes - a linhagem mais rica em número de espécies dentre todos os vertebrados. Esse grupo de peixes ósseos se divide em Sarcopterygii, que são os peixes de nadadeiras carnosas (ou lobadas), e em Actinopterygii (do grego actinos = raio; pteros = asa ou nadadeira) que corresponde aos peixes ósseos de nadadeiras raiadas.

Atualmente, existem apenas oito espécies de peixes Sarcopterygii e seis delas são de peixes pulmonados encontrados na América do Sul, África e Austrália. Esses animais são um elo entre vertebrados aquáticos e terrestres, pois são os peixes mais próximos, na escala da evolução, dos animais que vivem sobre a terra.

Se uma pessoa leiga fosse tentar adivinhar o tipo de esqueleto de um tubarão branco, ela provavelmente diria que ele é ósseo - e com muito tutano! Mas, o esqueleto desse predador é feito de cartilagem, assim como todos os outros peixes que pertencem ao grupo dos Chondrichthyes (outros tubarões, raias e quimeras).
Os peixes ósseos e cartilaginosos apresentam características distintas que podem ser resumidas na tabela abaixo.
Reprodução

Tanto os peixes ósseos como os cartilaginosos possuem mandíbula inferior, mas os agnatos, que são as lampreias e feiticeiras, não apresentam essa estrutura. São formas muito primitivas de peixe: são considerados fósseis vivos e são importantes para o estudo da evolução dos animais vertebrados. OsAgnatha são alongados, sem escamas e podem ser necrófagos ou parasitas.

Os peixes são nossos ancestrais

Em relação aos dinossauros, mamutes e o tigre dente-de-sabre, os peixes podem parecer desinteressantes para o leitor. Mas não fosse por esses animais aquáticos, nenhuma outra grande criatura teria existido. Isso porque os primeiros vertebrados a aparecer na Terra foram os peixes, há mais de 500 milhões de anos, no período Cambriano - eles são, em termos evolutivos, os ancestrais de todos os animais dotados de coluna vertebral, inclusive do ser humano.

O Pikaia, um dos peixes mais antigos descobertos no registro fóssil, era bem diferente dos atuais: não possuía a maxila inferior, apresentava o corpo alongado, o que lembra mais um verme do que um peixe, e não era um vertebrado, mas sim um cordado. Por outro lado, esse animal era dotado de várias características essenciais para que os peixes viessem a existir como espécie alguns milhões de anos depois: musculatura em V, simetria bilateral, e a estrutura precursora da coluna vertebral, a notocorda.

Nos períodos subsequentes, Ordoviciano e Siluriano, os peixes adquiriram uma armadura óssea na cabeça, como um capacete. Tal característica foi uma adaptação evolutiva para sobreviver aos ataques de predadores como o escorpião marinho. Então, no Período Devoniano, os peixes atingiram um alto nível de diversidade. Foi nessa época, inclusive, que surgiram os peixes cartilaginosos e ósseos.

A evolução adaptativa desses animais continua até os dias atuais, mas ao longo de centenas de milhões de anos, os peixes se especializaram para viver em ambientes aquáticos distintos, para se alimentarem e, como resultado hoje em dia há mais de 94 mil espécies de peixes reconhecidas. Apesar dessa grande variedade, os peixes apresentam algumas características em comum.

Características gerais dos peixes

Todos os peixes são animais aquáticos, possuem sistema circulatório fechado, coração com duas cavidades (um ventrículo e uma aurícula), aparelho digestório completo, e são ectotermos - ou seja, eles regulam suas temperaturas a partir de fontes de calor externas. Mas a ectotermia, assim como muitas características presentes nos peixes, não pode ser generalizada.

Peixes como os atuns, conseguem manter seus corpos aquecidos em 30°C quando a temperatura da água mede apenas 7ºC. Tal façanha é possível porque esses animais retém o calor produzido em seus músculos, durante a natação e, por meio de uma estrutura rica em vasos capilares (chamada rete mirabile) esse calor é transmitido ao sangue e distribuído por todo o corpo. Tubarões brancos e cavalas também têm essa capacidade.

Mas existem outras estruturas e qualidades fisiológicas que variam nas inúmeras espécies de peixes. Por exemplo, o Poraquê precisa obter oxigênio do ar, já que a quantidade desse gás que existe em seu ambiente não basta para a sua sobrevivência e, portanto, a respiração branquial é insuficiente - para conseguir absorver o oxigênio atmosférico, esse peixe apresenta alta vascularização na boca e, ao "abocanhar" o ar, o oxigênio se difunde para a sua circulação. Outras espécies de peixes ditos "pulmonados" transformaram a bexiga natatória, órgão relacionado à flutuabilidade, em local de trocas gasosas, enriquecendo-a de vasos sanguíneos capilares. Existem peixes que fizeram o mesmo com porções do intestino e estômago.

Uma das poucas características exclusivas dos peixes é o arranjo dos vasos sanguíneos branquiais: o fluxo do sangue é oposto ao da água que passa pelas brânquias. Esse tipo de arranjo tem o nome de "troca por contracorrente" e tal sistema garante o máximo proveito do oxigênio disponível na água. Se a água e o sangue se movessem no mesmo sentido, o sangue que sai das brânquias teria uma concentração de oxigênio muito inferior do que no sistema contracorrente. Essa foi uma das adaptações mais incríveis para um vertebrado viver na água.

Na maioria dos peixes o fluxo de água nas brânquias é unidirecional, como se fosse uma rua de mão única, de modo que a água entra pela boca e sai pelas brânquias. Nos peixes ósseos o opérculo, estrutura que recobre as brânquias, se move para frente e para trás, prevenindo que a água volte. Assim, os opérculos são aparatos auxiliares para que a água se mova em apenas um sentido nas brânquias. Já os peixes filtradores e espécies de mar aberto (alguns tubarões, cavalas, peixes-espada e atuns) perderam a capacidade de bombear água fazendo uso de suas brânquias.

Esses animais precisam nadar continuamente, com a boca entreaberta para que a água circule de maneira constante - esse método é chamado de respiração forçada. É por esse motivo que, quando um cientista captura um tubarão para obter as medidas de seu corpo, o animal é sedado e um forte esguicho de água do mar é colocado em sua boca.

A maneira como os peixes mantêm e ajustam sua capacidade de flutuar é outro fator em que os mecanismos fisiológicos se modificam, dependendo da espécie. Em muitos peixes ósseos, a bexiga natatória se infla ou se esvazia, de acordo com a necessidade de emergir ou de nadar para o fundo. Novamente, os tubarões são exceção. No caso desses predadores, a bexiga natatória é ausente e o órgão que regula a flutuabilidade é o fígado, rico em óleo - essa substância é menos densa do que a água e, por isso, é mais leve.

Para não morrer na praia

Mesmo com as mais incríveis adaptações evolutivas e malabarismos fisiológicos, os peixes não conseguiram driblar a voracidade do consumo humano. Atualmente os peixes enfrentam várias ameaças à sua sobrevivência, como a pesca comercial, pirata e esportiva, o desmatamento das matas ciliares, assoreamento dos corpos de água e poluição do ambiente aquático. No caso dos peixes marinhos, os perigos são os mesmos, porém em vez de serem prejudicados pela devastação das matas ciliares eles sofrem as consequências desastrosas da destruição dos mangues.

Atualmente, para não morrermos na praia, é preciso que haja mudanças de atitudes da sociedade, além da boa vontade política. Um bom ponto de partida é ler o Guia de Pescados, o qual contém a relação de espécies de peixes cujo consumo deve ser evitado. Sem os peixes, inúmeros animais marinhos e terrestres não teriam como se alimentar e, portanto, o destino de criaturas como os golfinhos, albatrozes, pinguins, focas, ursos e várias outras, é tristemente óbvio.
*Mariana Aprile é bacharel em biologia e educadora ambiental.

Como escolher seu peixe

Como escolher o seu peixe
Antes mesmo de escolher o tipo ou a espécie de peixe para colocar no seu aquário, terá que assumir sem dúvidas a sua vontade em iniciarse na aquariofilia. Isto porque ter peixes como animais de estimação não é apenas encher um recipiente com água e colocar lá um peixe qualquer.
Na verdade, a aquariofilia é uma atividade que necessita muita dedicação. Como terá oportunidade de constatar nesta seção, muitos são os cuidados a ter, quer na montagem e instalação do aquário como na manutenção das melhores condições de vida e de saúde do(s) seu(s) peixe(s). Para melhor compreender esta matéria recomendamos que leia atentamente os vários temas presentes nesta secção e se aconselhe na loja onde pretende adquirir o(s) peixe(s) e o equipamento necessário.
Após ter retirado todas as dúvidas, a escolha do peixe será de acordo com o seu gosto e com o habitat que quer reproduzir em casa. Desde logo a opção passa por habitat de água fria ou de água quente. Ambas as hipóteses requerem alguma instrumentação e permitem "encher" o aquário de peixes e exuberantes coloridos e formas.
Quando for comprar o seu peixe, faça-o numa loja que apresente boas condições de tratamento dos animais, escolha os peixes que lhe pareçam mais resistentes, que não estejam no fundo do aquário, que arrastem excreções, que nadem com dificuldades e que apresentem ferimentos ou rasgos nas barbatanas. Nunca compre peixes de um aquário onde estejam peixes mortos pois isso pode indiciar uma contaminação da água e propagação rápida de alguma doença. Uma vez a mudança de ambiente vai ser radical é importantes escolher peixes resistentes.

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Peixe Beta

Peixe-beta briga pelo seu território

Mariana Aprile*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Página 3
O nome beta remete à agressividade dos machos da espécie
Muito antes de embelezar os aquários com suas cores e formas exóticas, o peixe-beta já habitava em águas calmas e pobres em oxigênio do Sudeste Asiático. Ainda hoje ele pode ser encontrado nos alagados em que se planta o arroz na Tailândia, no Camboja e no Vietnã.

Os machos dessa espécie são territorialistas. Isso quer dizer que eles não gostam de visitas de seus iguais - apenas as fêmeas são bem-vindas.

Brigas entre peixes-beta

Se um peixe-beta entra no território de outro, há brigas sérias e um deles pode até morrer devido aos ferimentos. Por isso, os asiáticos têm o costume de colocar dois machos em um mesmo recipiente, para vê-los brigar - daí surgiu o nome popular de peixe-de-briga.

Eles brigam mesmo: o especialista William Sugai, biólogo e aquarista profissional há 27 anos, alerta que não se deve colocar dois ou mais machos de peixe-beta num mesmo aquário.

Contudo, o nome "beta" também remete ao comportamento agressivo entre machos dessa espécie de peixe. Antigamente, uma tribo de guerreiros, chamados Ikan Bettah, habitava as regiões do Sião, no território que hoje é a Tailândia. Como essa tribo era agressiva e territorialista, o peixe recebeu um dos nomes desse grupo de guerreiros.

Sem ar, peixe-beta se afoga

Para sobreviver em um ambiente pobre em oxigênio, o peixe-beta desenvolveu, após milhares de anos de evolução, um órgão de respiração complementar, chamado labirinto.

O aparelho respiratório fica na parte superior da cabeça e atrás dos opérculos - estruturas ósseas que revestem a abertura branquial desses peixes. As brânquias retiram uma parte do oxigênio da água, mas essa quantidade não é suficiente para manter a vida do beta. Por isso, ele vai, periodicamente, à superfície para engolir ar que vai até o labirinto, onde ocorrem as trocas gasosas. Se o peixe-beta não puder subir para engolir o ar, para respirar, ele morre afogado.

Peixe-beta no aquário

Algumas pessoas pensam que equipar o aquário de seu peixe-beta com bombinhas de ar ou filtro, garante quantidades suficientes de oxigênio na água e o animal não sentirá necessidade de subir à superfície. Ledo engano.

Tais equipamentos só irão provocar estresse no animal. Lembre-se de que esse é um peixe adaptado para águas sem turbulência e pobres em oxigênio. Por mais oxigênio que haja no ambiente, as brânquias do beta não são capazes de lhe fornecer a quantidade necessária desse gás vital.

Ninhos de ar

Os peixes-beta são ovíparos, isto é, colocam ovos. Sua reprodução é interessante. Quando um macho se interessa por uma fêmea, ele constrói um ninho feito de pequenas bolhas de ar.

Em seguida, vai até a fêmea e a envolve formando um "U" com o corpo. O "abraço" ajuda a fêmea a liberar os óvulos que são fecundados pelos gametas do macho no mesmo instante.

Os óvulos fecundados depositam-se, pouco a pouco, no fundo. O macho, em seguida, pega os ovos com a boca, gentilmente.
Um de cada vez, eles são depositados dentro de uma bolha de ar.

Cuidadoso, mas faminto

O papai-beta tem o maior cuidado com o seu ninho. Se algum ovo se desprender dali, ele se encarrega de recolocá-lo no lugar.

O macho cuida de seus alevinos, nome dado aos filhotes de peixe, até que eles sejam capazes de se alimentar sozinhos. Durante todo o tempo em que cuida dos filhotes, ele não se alimenta. Por isso, quando os peixinhos ficam independentes, podem ser devorados pelo próprio pai, faminto.

Para reproduzir peixes-beta em aquários, deve-se pedir orientações a especialistas, pois são animais de comportamentos complexos.

Aliados contra a dengue

Os peixes-beta são carnívoros e larvófagos: alimentam-se de larvas. Acontece que o Aedes aegypti, mosquito vetor do vírus da dengue, vive uma parte de sua vida como larva.

Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, Universidade Estadual do Ceará, e da Fundação Nacional de Saúde de Fortaleza, realizaram um estudo, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, sobre o peixe-beta como forma de controle biológico contra larvas de Aedes aegypti.

Os pesquisadores colocaram larvas em tanques com um peixe-beta em cada um, com água parada e limpa, e esperaram para ver o que iria acontecer. Passado um tempo, as larvas praticamente desapareceram, devoradas pelos peixes.

Dieta viva ou seca

Os peixes-beta comem qualquer coisa, mas isso não significa que tudo faz bem a ele. Se você tiver um ou mais desses peixes, pode optar por oferecer-lhes alimentos vivos, como artêmia, salina adulta, ou sanguessugas.

Mas ele pode, perfeitamente, se satisfazer com alimentos secos industrializados próprios para sua espécie. Seja seco, ou vivo, o alimento deve ser consumido pelo beta em poucos minutos. Jamais coloque comida demais - isso suja a água e prejudica a saúde do peixe.
*Mariana Aprile é bacharel em biologia e educadora ambiental.